segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Perdoar



...Aprendi, outro dia que perdoar é a junção de " per " com "doar". Doar é mais do que dar. Doar é a entrega total do outro. O prefixo "per" que tem várias acepções, indica movimento no sentido "de" ou em "direção" a ou "através" ou "para" etimologicamente falando, portanto, perdoar, quer dizer doar ao outro a possibilidade de que ele possa amar, possa doar-se. Não apenas quem perdoa que se "doa através do outro". Perdoar implica abrir possibilidades de amor para quem foi perdoado, através da doação oferecida por quem foi agravado. Perdoar é a única forma de facilitar ao outro a própria salvação. Doar é mais do que dar: é a entrega total ... Perdoar é doar o amor, é permitir que a pessoa objeto do perdão possa também devolver um amor que, até então, só negara ...

Por: (Arthur da Távora)

Angel.

domingo, 16 de novembro de 2008

Prosa e Poesia!!!!!


Há um poema meu, de nome "Alvorada", que nasceu com uma frase:

Uma fina luz desceu do céu e desfez o véu de névoa que me envolvia. Até a lua, que era fria, se aqueceu..."

Julguei que as paronomásias estavam perfeitas (sem falsa modéstia, rs!), mas quando fui dispor em versos — e um poema precisa justificar-se em versos, não é só o caso de escrever prosa pulando linha arbitrariamente! —, surgiu um problema: a melhor maneira que encontrei, foi dispô-lo redondilhas maiores (versos de 7 sílabas), pois a primeira estrofe ficava bem assim, num terceto.

Uma fina luz desceu
do céu e desfez o véu
de névoa que me envolvia"

Só que a segunda estrofe não cabia em redondilhas, só em 8 sílabas!

Até a lua, que era fria,
se aqueceu"

e eu ainda teria que jogar um verso incompleto para baixo.

Está vendo que angustiante?!

Por fim, para resumir, tive que fazer um "malabarismo métrico" (rsrs) para resolver isso: dispus uma estrofe em redondilhas, e outra em "8-7-8" sílabas, e fui assim até o final.

Veja como ficou:

ALVORADA

Uma fina luz desceu (7)
do céu e desfez o véu (7)
de névoa que me envolvia. (7)
Até a lua, que era fria, (8)
se aqueceu e fez em mim (7)
nascer um sol primaveril. (8)
Era abril, o mês cruel (7)
de Eliot, mas não o meu, (7)
que juvenil me alegrava (7)
por todo o dia. A poesia (8)
de soslaio me sorria, (7)
as musas sopravam-me versos (8)
sobremaneira, e Vênus (7)
desferia-me seus golpes (7)
de maneira extravagante. (7)
Mas a mim cabia guardar (8)
a paz e a pura harmonia (7)
que moram num coração puro. (8)
Cabia a mim preservar, (7)
em movimento seguro, (7)
o rio do curso do mar. (7)

Viu só como dá um trabalho violento?!

E ainda querem que eu escreva prosa. Eu, hein!

Por: Paulo Cruz é pai.
marido, filho, amigo. Apaixonado por literatura, sobretudo teologia,
filosofia, poesia e romances (principalmente os clássicos).
Alguém que ainda acredita em valores absolutos!


Angel

Aquela noite foi a mais longa e assustadora das nossas vidas. A lua minguante cruzou o firmamento como uma foice, golpeando as estrelas para fora do céu. Fomos envolvidos por uma escuridão, tão densa quanto os gemidos do Espirito.

A tristeza nos tomou por completo. Aqueles que levaram cativo o nosso ânimo, nos pediam uma canção; e os que destruíram nossos lares nos desafiavam a que os alegrássemos dizendo: "Cantem uma nova canção... Cante e com teu canto juntaremos riquezas."

Eles tomaram nossa mocidade em troca de um deus que não descia do púlpito; emularam uma divindade que não existia.

Uns eram poderosos e ordenavam coisas que realmente aconteciam; outros, de fala rebuscada, costuravam devaneios, como que querendo unir a tua Santa Palavra aos delírios de loucos heróis.

Todos iludiam igualmente, como os antigos egípcios faziam das pessoas escravos, a fim de erigir enormes monumentos.

Nossos talentos foram vendidos como mercadoria. Meus amigos, uma vez vazios, desfaleceram pelo caminho e foram atropelados pelo cortejo da empreita.

Nós, os que passavam as madrugadas em joelhos e lágrimas, abraçamos teu Anjo naquela noite escura, com tanto desespero, que este nos deixou seqüelas. E não o deixamos ir antes da Aurora.

Eu já tentava pregar os olhos quando Tomás me chacoalhou.

"- Vamos embora agora, enquanto os lobos dormem. Vamos antes que a noite volte."

Em meio a tantas quinquilharias inúteis guardadas no sótão, penduramos nossas guitarras, depois caminhamos junto ao rio que corta a cidade, ali nos assentamos e choramos... lembrávamos da igreja e dos nossos amigos.

Nossa boca se fechou. Nosso lamento era um prisioneiro, um gemido doloroso que passava por entre os dentes cerrados.

De volta ao templo, não falávamos. Não havia mais ninguém, só o Espirito de Deus entrava pelas janelas. Ele trazia em suas mãos um bálsamo de perfume gostoso e esfregava a cura em nossas almas com tanta ternura, que nos fez lembrar o colo de nossas mães.

Desta vez, só Ele, só o Espirito Santo ouvia a nossa musica. Ouvia lá dentro, em lugares que não existiam sem o Espirito, lugares onde as palavras não faziam sentido, nem mesmo eram necessárias.

Nosso irmão mais velho entrou pelas portas como um sol ao meio-dia e trouxe consigo uma enorme multidão! Pulavam em festa, agarravam suas pernas e pulavam em suas costas. Que visão feliz!

Ele trazia minhas preces escritas num livro. E pôs-se a lê-lo como quem concede uma bênção:

- A boa ventura, que esperamos de ti ó Pai, é que tu nos devolva noutras terras o que larápio roubou em nossas almas.

Nos encantaram com fábulas. Éramos como meninos sonhando. Enquanto isso, o valor se desfez tal qual o sal sob a chuva.

Em meio a tantos excessos, preferimos a língua dos anjos, sem duvidar da língua dos homens...

Que anjos, que nada! Eram homens!

Confinaram nossos dons em caixotes sujos, sugaram nossa arte para a ilusão de sonhos infames...

E tu, ó Deus Amor, tu nunca nos deixaste!

Nem eu nem Tomás, nem os nossos pais, nem mesmo os mais fracos dentre nós... tu nunca nos deixaste! Que amor é esse que tanto suporta?

Nós, os do caminho, tratávamos da trave de um e o cisco do outro, a fim de amar por nada, por que é essa matéria que tu ó Pai, nos deu ao longo da estrada. Amar e amar sem motivo.

Teus pastores pecaram. E até quando amaram, o fizeram pra que os amassem de volta.

Nós, que outrora andávamos cegos, enganados com deuses e homens, finalmente escapamos da noite. E assim, choramos a injustiça como nossa e confessamos os pecados com angústia.

Ó Pai, que tu nos dê noutras terras o que o larápio roubou em nós mesmos,

Tu que eras o estranho reflexo que víamos no espelho.

O Deus quem em segredo sustentava; o improvável amor das pessoas.

És o Amor que nos amou, não para que o amássemos de volta, mas para que nos amássemos uns aos outros.

Ora, vem Senhor! Este é o teu Reino. Nele haveremos de cantar pelos séculos dos séculos!

por Wagner Archela
http://www.cristianismocriativo.com.br/



Angel